Dino Teixeira fala sobre o consumo de música e de como se manter relevante durante à pandemia

Dino Teixeira fala sobre o consumo de música e de como se manter relevante durante à pandemia
Foto: Claudio Santana

“Nada será como antes” é o titulo de uma belíssima canção do Milton Nascimento. Mas pontua hoje, mais do que nunca, o momento que estamos atravessando. E com base nestas mudanças, em especial no universo musical, é que foi inspirado este bate-papo com o empresário artístico Dino Teixeira, que deu dicas valiosas de como se manter relevante durante esta pandemia. Sem mais, boa leitura.

Revista Feitos De Música > Que papel a música está exercendo na vida das pessoas neste momento de distanciamento social?

Dino Teixeira > Em primeiro lugar, muito obrigado pelo convite. Eu acredito que a música está presente em lugares que as pessoas muitas vezes não percebem, desde a abertura de uma série a um background de programa de tv. Mas acredito que nos dias de hoje quando a pessoa vai atrás da música, literalmente o público dando o play, a busca tem sido por entretenimento.

O brasileiro é fã de festa e acredito que tem buscado fazer a festa em casa, por isso inclusive as lives dos segmentos mais populares (sertanejo, samba, funk) tem tido alcances maiores do que até mesmo os artistas do segmento esperavam.

Acho que é um momento que as pessoas estão buscando algo que lhe façam bem, sem ter que lembrar do problema, afinal de contas o problema tá no nosso subconsciente o dia inteiro através de notícias e conversas de grupo de whatsapp.

Revista Feitos De Música > Sabemos que em momentos de caos, buscamos o entretenimento como forma de “respirar” um ar mais lúdico que o do nosso cotidiano. E a música é um caminho. Contudo, artistas independentes sofrem mais num período como este por não poderem trabalhar, fazer shows e com isso a situação financeira se agrava. Como fazer um planejamento de médio / longo prazo para estes momentos de crise?

Dino Teixeira > Eu acho complicado falar que o independente sofre mais, num período de recessão do showbiz, quem tem um custo fixo mais alto sofre mais e o independente está anos luz de distância dos custos fixos de um sertanejo mainstream por exemplo.

A primeira medida a ser tomada num planejamento de curto prazo é diminuir os padrões de vida dos sócios e cortar custos que não prejudiquem o fator humano (equipe).

A segunda é ter em mente que é mais importante manter os fãs já conquistados do que correr atrás de novos públicos, se tem alguém que pode tirar uma artista de uma situação ruim, são os fãs fiéis. E essa galera curte conteúdo! O artista que não conseguir produzir conteúdo com consistência nesse período, vai sair dessa pandemia com uma base de fãs menor e fria.

A gente faz arte e isso está ligado diretamente a criatividade que é o maior ativo de um planejamento de carreira nesse momento.

O artista independente tinha a desculpa de que o “lifestyle” do artista de sucesso era muito mais interessante que o dele, pois tinham shows, entrevistas, bastidores de turnês.

Agora que está todo mundo em casa, não tem mais desculpa. Quem for consistente em conteúdo com baixo orçamento e se relacionar diretamente com os fãs por direct no Instagram, respondendo todos os comentários, vai perceber o poder disso e se for inteligente, vai encontrar uma maneira de monetizar essa situação tendo uma relação de troca nunca antes vista entre artista <> fã.

Deixei médio e longo prazo de lado por enquanto, tenho pensado em bi-semanas e apenas isso, meus planejamentos de médio prazo caíram todos, o cenário é muito incerto e pode mudar muito.

Revista Feitos De Música > Com o advento da internet, das redes sociais, todos têm a oportunidade de ser seu próprio canal de mídia e com isso falar diretamente com seu público. Um exemplo bacana é o do músico Victor Mus, que criou alguns quadros para aumentar a interação, engajamento com o público dele. O próximo passo é criar eventos online pagos e exclusivos para que artistas e produção possam manter o seu pão nosso de cada dia?

Dino Teixeira > O próximo passo é o artista descobrir que ele também precisa ser um bom vendedor. A Anitta é uma grande vendedora, ela vende plano de celular, bebida alcoólica,  cosmético, tinta de cabelo e obviamente seus produtos musicais.

Todo fã tem um poder de compra, seja R$1,00 ou R$1000,00 cabe ao artista criar uma esteira de produtos interessantes e vendê-los. Seja um clipe exclusivo, camisetas, canecas, live exclusiva e por aí vai… Todo mundo vende, o personal trainer vende, o dentista vende, o advogado vende.

O artista vende um serviço (show) para um contratante, a partir do momento que ele perceber que pode vender produtos/experiências diretamente para os seus fãs, o jogo muda!

Tem muita gente reclamando de falta de recurso nessa crise… OK! mas e aí? eu entro no Instagram de um artista que eu escuto todos os dias e ele não tem nada pra me vender. Eu pagaria R$9,90 para assistir um doc de 50mins dos bastidores da última turnê do Los Hermanos, quantos milhares de fãs também pagaria? Esse é o ponto.

Revista Feitos De Música > Ultimamente vemos lives acontecendo a todo instante, muitas pontuais e patrocinadas. Outras com viés afetivo, como a da cantora Teresa Cristina, sem patrocínio, num formato de bate-papo informal com presença fiel dos Cristiners, amigos e artistas que celebram a vida ali com ela. Como profissi onal da área, como você vê este movimento das lives se tornando o “novo palco” e se há uma forma de aperfeiçoar para que não haja sempre conflito de dias, horários? 

Dino Teixeira > Cara, eu prefiro não falar muito sobre esse assunto, acho que as coisas estão indo rápido demais e pulando etapas fundamentais do showbiz.

Uma live com uma marca exposta acaba criando um novo produto que ainda não se sabe como remunerar o compositor. Sem o compositor, não existiria live e o compositor não está recebendo devidamente seus direitos nessas lives. Pularam essa etapa e agora vamos ter que resolver com o carro em movimento.

Mas tirando esta questão de como monetizar o compositor, eu acredito muito na fforça das lives. Meus pensamentos vão desde achar que para manter a consistência o artista popular vai começar a dividir as lives por geolocalização de alguma forma e fazer lives menores para cada região. Até achar que vai existir um “camarote” em algum momento. A parte paga em que o fã recebe benefícios como aparecer na live (o Vintage Culture tem feito isso sem cobrar nada).

Sobre as lives da pra ir muito longe, imagina um Tinder bombando só entre as pessoas que estão assistindo a live do Jorge e Mateus em São Paulo? Vou pensar mais e numa próxima oportunidade falo sobre isso.

Revista Feitos De Música > Que conteúdo é Rei, nós já sabemos. Mas como usá-lo para engajar ainda mais a base de fãs e se manter relevante neste mercado cada vez mais competitivo? A seu ver Dino, quais as três principais dicas para alcançar estes objetivos?

Dino Teixeira > 1) Seja 100% verdadeiro com a sua audiência!

Parece uma dica superficial, mas se o artista que está lendo isso parar pra se questionar “estou sendo 100% verdadeiro com minha audiência?” A resposta geralmente é NÃO.

A maioria dos artistas estão sendo “o que acha que tem que ser”. Por isso vemos tantos artistas mudando até de personalidade ao longo dos anos, porque não tem personalidade, porque nunca se permitiu ser verdadeiro.
Grandes nomes da música como Cazuza, Tim Maia, Ivete Sangalo e tantos outros, sempre foram muito verdadeiros com seu público.

Falta verdade, sem verdade você não consegue fazer a próxima dica.

2) Seja consistente!

As pessoas querem estar na Globo para milhões de pessoas, mas elas não valorizam as dezenas/centenas/milhares de pessoas que têm nas suas redes sociais.

Postar todo dia é necessário e ponto final. Não sou eu que estou dizendo isso, é uma porra de algoritmo. O artista tem o direito de fazer ou não, lógico.

E o que trava esse processo de ser consistente é a falta de verdade. O celular tá na sua mão, a internet tá ali te conectando com o mundo, é só postar. Mas aí se precisa “maquear o ambiente”, pensar por horas na legenda que tem que postar, aí já não é mais verdadeiro e jamais conseguirá ser consistente.

3) Distribua seu conteúdo.

Não existe almoço grátis. Vocês acham que o “tio Zuckberg” ia criar uma plataforma foda como o instagram, só pra você se divertir com os seus amigos e divulgar seu trabalho? A conta é gratuita e a atenção é paga.

Distribua seus conteúdos através de tráfego pago, é justo. Ao invés de reclamar que apenas 4% das pessoas que te seguem viram seu lindo vídeo cantando Elis Regina. Distribua, gaste R$10,00 e alcance 100% do seu público. Depois venda algo para esse público por mais de R$10,00 e segue a vida.

Dessa forma vai perceber que enquanto vivermos num modelo de capitalismo, é justo o Instagram cobrar por mídia. Você assistiu Globo a vida inteira e nunca reclamou dos comerciais. Inclusive foi influenciado por esses comerciais a beber Skol, comprar produtos da Nestlé e usar sabonete Dove.

O tráfego pago é seu aliado pra atingir resultados maiores, não o trate como seu inimigo. Uma campanha de R$1.000,00 de divulgação de um single, pode gerar esse mesmo resultado em royalties no longo prazo e do seu bolso você não vai precisar dividir com o Instagram nadica de nada.

Você fechou recentemente uma nova turma do seu curso “ACESSO AO BACKSTAGE”. Como surgiu o curso, qual objetivo, como tem sido a resposta do público e o que provavelmente teremos de novo referente a conteúdo na próxima edição?

O Acesso ao Backstage é um filho que tenho muito orgulho. Eu sempre quis ensinar, cheguei a fazer faculdade de geografia (licenciatura) e o assunto que eu domino é o mercado musical. Essa vontade de ensinar unida ao fato de que a maioria dos artistas (talentosos ou não) não prosperam na sua carreira por falta de conhecimento me fez ter a iniciativa de criar esse curso.

Tenho dois objetivos para esse projeto:

O primeiro é olhar para um line up de um grande festival e falar “50% desse line fez o meu curso”.

O segundo é conseguir monetizar esse projeto, por enquanto ainda não se paga, os custos fixos existem com recursos humanos, softwares e ferramentas que usamos para os clientes poderem ter a melhor experiência possível. A nossa área de membros é própria e do jeito que eu queria que fosse e isso me custou uma fortuna.

Vendemos todo conteúdo que eu sei e que já gerou mais de 250.000.000 de streams nas plataformas digitais, por R$497,00 e tem gente que acha caro. Caro é deixar de monetizar a sua carreira a cada dia que passa no melhor momento para se ter uma carreira musical.

No momento que respondo essa entrevista as inscrições estão fechadas, mas sempre dá pra esperar algo novo, eu atualizo o conteúdo do curso mensalmente, então tô sempre colocando coisas que eu vivo no campo de batalha.

Esse mês vai entrar minha negociação pra uma live com uma grande marca do Brasil.

Estou sempre buscando ser um profissional melhor a cada dia e conseguir passar esse conhecimento e essa motivação para os artistas que me acompanham, é o que me faz ter o sono dos justos a noite.

Obrigado pela oportunidade de falar por aqui. Sucesso e vida longa para a Feitos de Música.

Obrigado a você Dino. Está sendo uma honra acompanhar seu trabalho e aprender diariamente com suas dicas no Instagram. Em tempo, se você ainda não o segue está marcando bobeira. Cola no ig @dino_teixeira e fique informado de tudo que está acontecendo no universo musical.

Mais um bate-papo incrível chegou ao fim. Até o próximo!

Cristiano De Jesus


Cristiano De Jesus

Eu, comunicador e sonhador, filho da Dona Rosa e do Sr. João que, enquanto admira às belezas da vida, ouve boas histórias e muitas músicas para criar sua própria trilha sonora.

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